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quarta-feira, 7 de março de 2012

Os rumos do Movimento Estudantil na USP – Um balanço sobre a mobilização estudantil iniciada em 2011

Escrevemos este texto para compartilhar um pouco da avaliação que fizemos coletivamente no Universidade em Movimento sobre os acontecimentos do último ano (em especial dos últimos meses) na USP.
Apesar da USP sempre ter tido problemas, o ano de 2011 teve suas peculiaridades, que se iniciaram na Universidade literalmente desde a chegada de Rodas à Reitoria, tendo sido eleito em segundo lugar na lista tríplice, algo que não ocorria desde a Ditadura Militar.

Rodas também conseguiu desarticular as categorias (estudantes, professores e funcionários) de maneira magistral, acabando com a paridade salarial entre categorias, dando bônus, e perseguindo politicamente os mais engajados. Rodas de fato administra a USP como se fosse sua fazenda, fazendo nela o que bem entende: constrói e demole prédios onde quer, permite a entrada da PM… Recentemente, ganhou da amicíssima revista Veja o título de “Xerifão da USP”. Aceitou o elogio: mandou colocar no site oficial da universidade.

Em resposta à ação violenta dos mais de 400 policiais na desocupação da reitoria – que pode ser encarada como um grande resumo da gestão truculenta, oligárquica e autoritária do Xerifão da USP -, o Movimento Estudantil (ME) deu sua resposta: uma greve, atos com 6 mil pessoas na rua, milhares presentes em diversas assembleias em muitos cursos, em diversos campi. A resposta foi um movimento que conseguiu se expandir para além da FFLCH, para além do Butantã. Afinal, apesar de a greve ter se concentrado basicamente na FFLCH, ECA e FAU, quase todos os cursos do Butantã realizaram debates sobre o assunto, assim como quase todos os campi da USP. Muita gente que estava alheia aos acontecimentos começou a se envolver e participar dos debates e atos. Mesmo aqueles que não chegaram a participar, seja de dentro ou de fora da universidade, passaram a olhar para o ME da USP, para o bem o para o mal.


Este, no nosso balanço, é o principal aspecto positivo dos últimos meses: o movimento aumentou. Isso é importante justamente porque é no número de pessoas que conseguimos envolver que reside a força do movimento estudantil. Quanto mais gente participando e apoiando, mais força temos.

Porém, mesmo crescendo, o movimento vem sofrendo derrotas, e muito sérias. A prisão de 73 estudantes na reintegração de posse da reitoria, a expulsão de outros 6, o processo de reintegração de posse da moradia retomada e do espaço de vivência do DCE são ofensivas concretas da reitoria no sentido de criminalizar e coibir as ações dos estudantes, e ela não tem recuado.

A reitoria atacou em período de férias, quando o movimento naturalmente tem dificuldade em dar respostas, mas não é esse o motivo que explica estarmos sofrendo derrotas. A mais brutal de todas, por exemplo, a prisão dos 73 na ocupação da reitoria, ocorreu não só enquanto estávamos em aulas, mas no meio de todo esse processo de mobilização. Julgamos de primeira importância termos isso claro: não conseguimos em nenhum momento fazer com que a reitoria recuasse. Pelo contrário, as medidas de repressão têm se intensificado, e de uma forma que há muitos anos não acontecia.

É preciso lembrar, ainda, que o quadro que enfrentamos na USP não está desconectado do resto da sociedade: o governo paulista, que através de seu reitor coloca 400 policiais e cavalaria para resolver problemas internos da universidade, é o mesmo que leva a cabo a política higienista na Cracolândia e a reintegração de posse do Pinheirinho, com 2 mil policiais, que resultou até em moradores mortos. Os problemas de moradia, saúde pública e ensino, que a princípio são de responsabilidade do Estado, são todos tratados de uma só forma por Alckmin e seus partidários: como caso de polícia.

O precedente que as ações aqui na USP abrem para que as punições e perseguições aos movimentos das demais universidades no Brasil sejam disseminadas e banalizadas é gravíssimo para o Movimento Estudantil, e devemos ter plena noção disso. O respaldo que isso muitas vezes tem na opinião pública, com ajuda de uma mídia que tem lado, torna a situação ainda mais preocupante.

Mas por que, se conseguimos incorporar tantos estudantes, continuamos a ser atacados e a sofrer derrotas? Além da ação da reitoria e do governo estadual, do apoio midiático com que contam etc., é necessário também entendermos que erros graves que permeiam o próprio movimento nos impedem de avançar.

Problemas gerais do movimento e a polarização

Muitos problemas estão presentes no ME da USP: extremo clima de beligerância entre os setores, rixas, denuncismo, autoproclamação etc. A priorização, por parte de muitos, da autoconstrução de suas organizações em detrimento da construção do movimento leva à exaltação das disputas internas e afasta muitos estudantes das assembleias e outros espaços do movimento. Isso acaba sendo um tiro no nosso próprio pé, pois quem ganha com essas atitudes é a direita, a reitoria e o governo do Estado, que nos querem enfraquecidos. Esses são, portanto, vícios que devem ser combatidos.

Mas as diferenças de concepção e opinião no como fazer as coisas existem, e isso é inevitável. E toda a mobilização e greve iniciadas no final de 2011 foram permeadas por uma polarização bastante clara, que correspondeu genericamente a dois setores: um que defendia as propostas aparentemente sempre mais radicais, como as ocupações, e outro que enxergava a necessidade de mais cautela para que fosse possível o diálogo com o restante dos estudantes e da sociedade. Embora não de forma mecânica – nem todos se encaixam, necessariamente, de um lado ou de outro –, essa divisão corresponde bem nitidamente a dois agrupamentos, que coincidem com duas chapas formadas para a eleição para o DCE: a chapa 27 de Outubro (composta por LER-QI, MNN, PCO, POR, Práxis e independentes), “mais radical” (tanto é que se autodenominam usando a data do confronto que deu início a toda a mobilização); e a Não Vou Me Adaptar (MES/Juntos!, CSOL/Barricadas e Rosa do Povo/Domínio Público, que são setores da até então gestão do DCE, mais PSTU e independentes), os “mais moderados”.

O setor “moderado”

Os setores correspondentes à Não Vou Me Adaptar apresentaram propostas importantes, como a proposição do plano alternativo de segurança. Já que a justificativa da reitoria para colocar a PM no campus era a falta de segurança, entrar neste debate significava mostrar que havia outras formas reais de deixar o campus seguro, e que a presença da PM significava a intenção de tratar os conflitos políticos internos da universidade como caso de polícia. Esta pauta, proposta pela Não Vou Me Adaptar, era, portanto, uma importante forma de dialogar com os estudantes, que poderiam estar convencidos da presença da PM no campus pelo argumento da segurança, e ganhá-los para o nosso lado.

Entretanto, esses setores entraram em choque com boa parte dos estudantes envolvidos nas mobilizações, radicalizados pela situação (PM no campus e extremo autoritarismo da reitoria), e que passaram a enxergar o DCE, no qual o setor em questão estava identificado, como inimigo. A cautela – a objeção às formas diretas de luta, como as ocupações – passou a se confundir com imobilismo. E para isso o outro setor, o 27 de Outubro, também contribuiu: tratou de denunciá-los e de acusá-los de “traidores do movimento” desde o início, inclusive de formas caluniosas, como com a história de que “o DCE entregou os estudantes [pegos fumando maconha] para o camburão da polícia” (veja a nota de esclarecimento dos três estudantes  envolvidos). Chegaram a afirmar que o DCE, PSOL e PSTU estavam do lado da reitoria, do governo do PSDB e da PM – o que, para dizer o mínimo, não está lá muito próximo da realidade.

Mas o fato é que a pecha de “traidores do movimento” pegou entre muita gente. Por que isso ocorreu? Cabe aqui um uma observação: neste ano, em que a PM entrou de vez no campus, o autoritarismo da reitoria, através das mais diversas medidas, não tem precedentes. A conjuntura da USP em 2011 requeria uma resposta radicalizada do movimento. E ela ocorreu, com ou sem a gestão do DCE.

Ao contrário disso, a gestão de 2011 realmente nada ou muito pouco fez em relação à construção da luta contra a política e o autoritarismo da reitoria. Ao longo do ano, realizou muito pouco trabalho de articulação com os Centros Acadêmicos, base da organização do movimento, não esteve presente na organização do Encontro de Centros Acadêmicos, nem no I Encontro de Mulheres da USP (dos quais tampouco participaram os setores “radicais”, por não serem ações diretas). E, principalmente no segundo semestre, optou por construir pautas que diziam respeito muito mais aos grupos representados na gestão – alguém lembra do “15-O” e o “Fora Ricardo Teixeira”? – do que a construção da luta contra as ações da reitoria, que era o que do movimento precisava naquele momento.

Assim, quando três estudantes foram pegos pela polícia fumando maconha e um enorme protesto dos estudantes contra a PM e a política autoritária da reitoria foi desencadeado, a gestão do DCE não havia contribuído em praticamente nada nessa discussão e tampouco era referência para os estudantes. Com uma postura moderada quando a situação exigia radicalidade, e em choque com uma base radicalizada, não foi tão difícil colocar-lhes a pecha de “traidores do movimento”. Erro tático: ou a Não Vou Me Adaptar não soube compreender o quão latente era o sentimento anti-reitoria entre os estudantes e que o momento pedia pela radicalização (o que, convenhamos, não era tão difícil de captar), ou estava preocupada demais com outros assuntos, como a autoconstrução de seus grupos e o calendário eleitoral que se aproximava.

Essa é a lógica que tem predominado nos últimos anos, de conquista das entidades voltada para a autoconstrução dos grupos que estão nela. Esse foi o motivo básico pelo qual saímos do grupo da última gestão (muitos de nós defendiam que a pauta prioritária do DCE para este ano fosse, desde o início, o Fora Rodas, e não o “15-O” ou “Fora Ricardo Teixeira”) para formar o Universidade em Movimento. E é por isso que os estudantes não têm enxergado as entidades como referência do movimento. Ao contrário, as entidades têm sido vistas cada vez mais como inimigas do movimento. Pensamos que isso deve ser seriamente revisto por aqueles que atuam no movimento estudantil da USP, e os setores da Não Vou Me Adaptar, a nosso ver, definitivamente não têm compreendido a importância que tem uma entidade como o DCE enquanto articuladora e unificadora dos estudantes.

Ao DCE cabe articular os Centros Acadêmicos, que têm o contato direto com a base e são os organizadores e os alicerces do movimento cotidiano, bem como se aproximar dos demais setores, como o Sintusp, a Moradia Retomada etc (por mais que se tenha diferenças com eles). Todos os setores que estão em movimento devem tomar parte na sua direção. Menos fragmentados, ficamos muito mais fortes, e não se trata de romantismo. O que não é possível é que apenas um grupo sozinho dirija o movimento, O desafio é conseguirmos criar uma forma de dirigir o movimento que seja aberta e democrática. Que as divergẽncias, que existem, sejam expostas, respeitadas e discutidas, mas principalmente, que na hora da ação tenhamos unidade, para que não nos falte força. A isso chamamos de direção coletiva.

O outro grupo (PSTU), que, junto a estes setores da antiga gestão a que nos referimos (MES/Juntos!, CSOL/Barricadas e Rosa do Povo/Domínio Público), compõe agora a Não Vou Me Adaptar!, também não foge disso. Sua gestão em 2009 (Nada Será Como Antes) se caracterizou basicamente pela construção da ANEL e o negligenciamento das necessidades do movimento – não realização do X Congresso dos estudantes, sem falar na retirada da gestão em plena greve no Butantã para o congresso de fundação da ANEL.

Até semanas antes das inscrições de chapa, as duas correntes (MES e PSTU) viam-se como inimigos absolutos no movimento estudantil da USP, e ninguém esperava que viessem a compor uma mesma chapa para o DCE. Com a justificativa de enfrentar a direita nas urnas, empreendem uma junção tão artificial que era inimaginável há pouquíssimo tempo para seus próprios militantes. O movimento precisa de unidade sim, mas unidade efetiva, no dia-a-dia (Leia nossa resposta ao “chamado de unidade” que nos foi feito pelos grupos que compõem a Não Vou Me Adaptar!). Infelizmente, nada nos faz crer que essa “unidade” é para exercerem uma “direção mais coletiva” do movimento. É uma unidade meramente eleitoral, entre quem não quer por nada sair do aparelho e quem quer por tudo nele estar, e que não vem acompanhada da necessária mudança na prática de fazer movimento. Em 2010, por exemplo, digladiaram-se na eleição e por 50 votos a Reconquista, a chapa da direita, não ganhou. Definitivamente, não é a reprodução dos vícios levada às últimas consequências o que o movimento precisa para se fortalecer e combater a direita.
É com muita franqueza que fazemos essas críticas. Mas são críticas que vem de reflexões sobre problemas reais e latentes que existem no movimento, e que portanto precisam ser colocadas, sobretudo pela preocupação que tais problemas nos causam.

Afirmamos que são preocupações pois as consequências que o vazio político deixado por uma política que prioriza a autoconstrução dos grupos e não o fortalecimento do ME, é um movimento rachado e um crescente rechaço às entidades, aos partidos de esquerda e a qualquer forma de organização. Este vazio político é ocupado tanto pela direita quanto por setores inconsequentes do movimento e que acabam ditando táticas impensadas.

O setor “radicalizado”

Do outro lado da moeda, vemos predominar uma ideia de movimento que preza sempre pela ação aparentemente mais radical, como se a ação direta fosse nosso único instrumento capaz de levar adiante a luta contra a política da reitoria. Há aí um erro grave: nem a ação direta é o único instrumento capaz de fazê-lo, nem tampouco deve ser encarada sempre como um erro tático.

Nesse setor se insere com peso fundamental a chapa 27 de Outubro. Uma das coisas que tal setor tem feito é colocar os estudantes contra suas entidades representativas, principalmente o DCE. Além da calúnia de que ele “entregou os estudantes para o camburão da polícia”, deslegitimaram as entidades estudantis de diversas formas: barrando a participação de estudantes diretores de Centros Acadêmicos ou do DCE em espaços do movimento (como nas comissões da ocupação da administração da FFLCH), com gritos, a todo momento, de “Fora DCE!”, ou com as repetidas solicitações de mudar as mesas de assembleias gerais e de curso e de dissolução das entidades e sua substituição pelos delegados do Comando de Greve – ainda que essa proposição nem sempre fosse feita de maneira clara.

É certo que as últimas gestões do DCE pouco têm contribuído para que os estudantes tenham a entidade como referência, como já dissemos, e daí o sentimento anti-DCE ter prosperado facilmente nos últimos tempos. Entretanto, o rechaço ao DCE e às demais entidades é ruim para o movimento, pois nos divide e nos enfraquece. As entidades são instrumentos importantes de auto-organização independente dos estudantes. Auto-organização, sim, uma vez que são estudantes eleitos por estudantes, sem interferência de reitoria, professores ou do que quer que seja. Por isso, as entidades estudantis são conquistas históricas dos que lutam. A organização nos dá força, nos unifica, e seu enfraquecimento só é bom para a reitoria e para o governo estadual.

É importante também observarmos o papel que tem cumprido o Comando de Greve. Ele pode e deve cumprir importante papel em momentos de plena mobilização, servindo de instrumento para a execução de tarefas quando há grande movimento. Entretanto, na prática ele tem sido usado como tentativa de substituir as entidades estudantis. E isso acontece quando se decide, por exemplo, que a Calourada Unificada seja realizada pelo Comando de Greve e não pelos Centros Acadêmicos. Era importantíssimo que fossem esses últimos que realizassem a calourada conjuntamente, pois isso fortalece a organicidade entre os movimentos dos cursos e o movimento geral, cria referência das entidades estudantis entre os calouros, integra os diversos campi da capital e, principalmente, do interior, que também têm estudantes que fazem movimento, mas não estão integrados num comando de greve que é demasiado centrado no Butantã.

Aproveitando-se de um problema do movimento – a deslegitimação das entidades – e alimentando-o, o Comando de Greve autonomizou-se, adquiriu uma dinâmica interna própria semelhante à de uma assembleia, com pouco diálogo interno e votações sempre polarizadas, com ligeira vantagem para os setores identificados com a 27 de Outubro. Assim, a tentativa de substituir as entidades pelo Comando coincide com o intuito por parte deste setor de incidir mais nas decisões e na direção do ME e alimentar uma ideia de movimento no qual somente os “estudantes mobilizados” devem ser representados. Diversas vezes ouvimos a defesa de que “o comando representa os estudantes mobilizados”. Ou seja, não querem que o movimento busque representar todos os estudantes, mas apenas os “mobilizados” – é a concepção que compreende que a vanguarda, setor “mais avançado” do movimento, deve “puxar” ou “rebocar” a base, e não permitir que o setor “mais atrasado” (direção burocratizada – no caso, as gestões das entidades) dirija o movimento.
Outro ponto importante diz respeito aos golpes que sofremos por parte da reitoria: prisões, reintegrações de posse, expulsões etc.. Todas essas ações ocorreram onde o movimento estava mais fragilizado: ou isolado, ou rachado. E quais foram essas ações?

Uma delas foi a ocupação da reitoria. É claro que era justo ocupar a reitoria, pois o autoritarismo com que a reitoria vinha e vem implementando suas medidas requeria que tomássemos medidas igualmente radicais. O problema é que, no momento em que a ocupação ocorreu, o movimento estava dividido ao meio. A ocupação já nasceu rachada, portanto não havia sequer possibilidade de ser um movimento unificado de todos os estudantes, pois começou já sem o apoio de metade dos que estavam na assembleia que a precedeu. Independente do mérito das questões daquele momento (se devíamos ou não votar a ocupação mesmo com o horário, se a assembleia devia ter sido encerrada daquela forma etc.), o importante é entender que aquele foi o auge da polarização entre dois lados apontados, onde a ausência de diálogo entre nós atingiu o ápice e uma parte via a outra com – não é exagerado dizer – um ódio assombroso. Ocupação de reitoria rachada, no momento de maior divisão e fragilidade do movimento, é prato cheio para a ofensiva da reitoria e do que há de mais conservador na sociedade. Resultado: prisão de 73 estudantes que estavam na ocupação, e, por parte da mídia, um tratamento tão agressivo quanto a ação policial.

Naquele momento, apoiamos a ocupação da reitoria, pois ela só ocorreu porque não há espaços nessa universidade para que os estudantes sejam ouvidos e por isso somos obrigados a gritar para que nos ouçam [leia nossa nota sobre a ocupação]. Não havia como ser diferente. Internamente, entretanto, criticamos a irresponsabilidade de setores como o 27 de Outubro que, desde o início, se esforçaram em estimular o clima de beligerância interna a que chegamos, onde um setor dos estudantes enxerga o outro praticamente como seu pior inimigo, culminando com a atitude inconsequente de realizar uma ocupação rachada. Reparem, achamos que, não só nesse episódio, mas durante todo o processo, houve erros graves de ambos os “lados”. E esse que acabamos de apontar é um deles.

Assim, outro exemplo de ações do movimento que ocorrem ignorando-se completamente a conquista do apoio da maioria e a coesão entre os estudantes diz respeito à Moradia Retomada (ocupação da Coseas), em função da qual 6 estudantes foram expulsos em dezembro e que sofreu reintegração de posse em 19 de fevereiro deste ano, com o saldo de mais 12 presos, entre eles uma garota grávida. Desde o início ela se tornou um movimento isolado inclusive entre os estudantes do próprio CRUSP. A pauta da moradia e da assistência estudantil é incontestavelmente justa e latente dentre aqueles estudantes. Se é assim, porque são tão isolados até no CRUSP, a ponto de na penúltima eleição da Associação de Moradores ter sido eleita uma gestão que se dizia de direita e que era totalmente desconhecida até então? Seria porque os moradores do CRUSP são de direita? Não! Mas sim porque não queriam de jeito nenhum o grupo da Moradia Retomada novamente na gestão. E por que isso? Porque não há preocupação, por parte desse grupo, em se obter o apoio da maioria. Essa é uma característica de muitos setores do movimento estudantil da USP, setores que têm tido ampla reverberação nas mobilizações desde outubro, e por isso atentamos para esta preocupação.

Temos que voltar a ter como objetivo conquistar o apoio da maioria. Justamente nos momentos em que o movimento menos se pauta por isso, é que sofremos as piores derrotas.

E nós, onde ficamos nisso?

Cabe aqui também fazermos uma autocrítica de nossa atuação. Estivemos presentes e ao máximo atuantes em todas as assembléias gerais, nas assembléias de cursos e campi onde nos encontramos, no comando de greve. Entretanto julgamos que na prática ainda não conseguimos romper a polarização que foi dominante (e provavelmente ainda é) durante o processo. Somos um grupo novo, formado no final do ano passado (às vésperas do início de toda essa mobilização) por setores e indivíduos descontentes com a forma predominante de como se vinha fazendo movimento estudantil na USP, que se juntaram pra conseguir colocar a sua opinião no movimento. Com todas as limitações que a realidade nos impõe, num movimento altamente polarizado e hostil, é isso o que temos tentado fazer.

Um dos momentos em que nos posicionamos claramente foi na decisão da última assembléia do ano, que deliberou a continuidade da greve durante as férias. Fomos contra a proposta porque é no mínimo duvidoso a viabilidade de conseguirmos efetivar uma greve em início de ano, com calouros que chegam e, enquanto tais, querem conhecer o mundo acadêmico no qual entram. E, mesmo que façamos uma calourada muito boa e que convençamos muita gente a respeito dos desmandos da reitoria, entendemos que empurrar uma greve no início do ano pode nos fazer atrair, desnecessariamente, a antipatia de um sem-número de outros estudantes (que estão entrando agora e aqui vão permanecer mais 4, 5 anos) com o movimento.

Pensamos que uma boa forma de conseguirmos retomar o movimento e fortalecê-lo é fazermos dias inteiros de paralisação em toda a USP. Conseguríamos efetivar isso muito mais do que uma greve de início de ano e daríamos a possibilidade de que outros campi (e não só o Butantã) também conseguissem fazê-lo (São Carlos, por exemplo, realizou paralisações durante as mobilizações do ano passado).

Os desafios do movimento para 2012

O movimento já demonstrou que pode ter muita força. Mas não demonstrou saber usá-la de forma a obter vitórias. É empolgante assistir a assembleias com 3 mil estudantes e grandes atos, ver que ainda há muita capacidade de indignação dos estudantes, mas de nada adianta nosso movimento se os únicos resultados concretos que obtemos são prisões, expulsões e um movimento cada vez mais dividido internamente, onde um lado enxerga o outro literalmente como inimigo.
 
Podemos avançar, temos condições reais de fazê-lo. Mas para isso é necessário que utilizemos as táticas corretas da forma correta. Que nos utilizemos tanto das ações diretas quanto das “indiretas”, que visam o diálogo e o convencimento. Que quando façamos uma ocupação, por exemplo, estejamos coesos, com “força máxima”, e principalmente buscando o apoio da maioria dos estudantes e do máximo possível da sociedade (essa preocupação também deve existir). Somente se tivermos como objetivo a conquista do apoio da maioria é que conseguiremos tensionar a reitoria e fazê-la recuar.

E, para nós, mais do que uma greve forte, é preciso que o movimento na USP esteja forte. E movimento forte é movimento com participação de muita gente, envolvida nos mais diversos tipos de ações. Precisamos ampliar o contato para além dos muros da Universidade. Ações como a do Fórum de Extensão (que pintou o muro que divide a Cidade Universitária da São Remo) devem ser construídas e fortalecidas. O 8 de Março, na primeira semana após a calourada, dia histórico da luta das mulheres, também é um bom momento para nos desafiarmos a tocar pautas que dialoguem para além da USP, e para mostrar que temos muitas pautas em comum com outros movimentos.

Nesse mesmo sentido, temos de entender que a luta dos estudantes é a mesma luta de diversos outros setores da sociedade. Devemos estar articulados com outros movimentos, e fazer ações conjuntamente. Assim, temos mais força para avançar. Dentro dessas articulações é prioridade que estejamos ao lado do movimento negro na luta por cotas e por acesso na USP, para que o povo esteja na universidade e esta seja mais diversa e democrática.

Precisamos fortalecer o vínculo entre as categorias, tomar a iniciativa de dialogar mais e atuar conjuntamente com trabalhadores e docentes.

É necessário fortalecer o movimento em toda a USP, não só no Butantã, não só na FFLCH. O movimento deve acontecer em todos os lugares – não com figuras iluminadas que saem da FFLCH para levar o conhecimento para os outros – mas a partir de cada realidade local, no esforço de construir identidade e solidariedade entre nós. Isso é cotidiano e envolve uma preocupação igualmente importante e que vai além dessa maneira de fazer movimento com que muitos de nós estamos acostumados.

Assim, a melhor tática para o início do ano será centrar nossas forças na construção de uma maioria real: é preciso que o movimento esteja com o grosso dos estudantes, nos cursos, realizando debates, produzindo materiais, aumentando a circulação de informações, para dentro e para fora da Universidade. E também realizando grandes assembleias nos cursos, para que o movimento seja, de fato, dirigido pela base, de modo que consigamos criar uma força política real, capaz de obter conquistas.


Publicado originalmente no blog UNIVERSIDADE EM MOVIMENTO

quinta-feira, 1 de março de 2012

CAMINHOS PARA A PAZ NA COLÔMBIA




Foto CINEP


Agenda Colômbia-Brasil saúda a decisão histórica das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia, FARC-EP, anunciada no domingo, dia 26 de fevereiro, de libertar de forma unilateral os últimos 10 policiais e militares do Estado colombiano, mantidos em seu poder como “prisioneiros de guerra” e de revogar a lei 002 de 2000, a qual põe ponto final à pratica de retenções econômicas como método de financiamento de sua luta[1].
A decisão das FARC-EP mostra o seu interesse de abrir caminhos para uma solução política dialogada do conflito. Soma-se nesta conjuntura a posição manifestada pelo Exército de Libertação Nacional – ELN, no dia 28 de fevereiro, de buscar uma saída política ao conflito que vive Colômbia[2].
É necessário dizer que esses passos dados em direção a construção de paz têm sido um esforço da organização Colombianos e Colombianas por la Paz que estabeleceu mecanismos de interlocução com a insurgência colombiana para criar cenários possíveis para diálogos entre o governo colombiano e as organizações insurgentes[3]. Desta mesma forma há que destacar o papel que tem assumido o processo popular Marcha Patriótica, como proposta que abre caminhos para a paz e para a construção alternativa de poder pelas organizações sociais e de base do povo colombiano[4]. 
Há necessidade de pressionar ao governo da Colômbia, na pessoa do presidente Juan Manuel Santos, para que aceite o inicio do processo de diálogos de paz, permitindo ir avante na solução política ao conflito retomando a agenda inconclusas do Caguan com as FARC-EP[5] e as propostas feitas pelo ELN[6]. Para que não sigam mantendo a postura política que privilegia a estratégia militar da pax romana de “cadeia ou a tumba[7]”. Para que não siga criminalizando a cidadãos colombianos e às organizações sociais que tomam as bandeiras, do principal anseio do povo colombiano: a paz com justiça social.
Agenda Colômbia-Brasil, como um processo de construção de solidariedade de organizações sociais e políticas do povo brasileiro e colombiano, acredita que a superação dos problemas que originaram o conflito que ainda se mantém, como a impunidade, a iniquidade econômica e a injustiça social por vias verdadeiramente democráticas permitirá encontrar uma solução ao conflito. Acredita que a solução política ao conflito é o caminho para a construção da paz com justiça social e de uma Colômbia democrática com espaços para todas e todos.
Agenda Colômbia-Brasil chama às organizações sociais e políticas brasileiras que acreditam na solidariedade entre os povos:
Para mobilizar-se, através de suas pautas de luta e pressionar com manifestações publicas ao governo e às organizações insurgentes da Colômbia para que retomem os diálogos de paz de forma transparente ao povo colombiano.
Pedir ao governo brasileiro que mantenha sua atitude de apoiar as iniciativas de paz na Colômbia e para que peça, em conjunto com a UNASUL, que o governo colombiano retome os diálogos de paz com as organizações insurgentes.
Para que apóiem o processo popular Marcha Patriótica, que esta sendo construído na Colômbia, como proposta que abre caminhos para a paz e construção alternativa de poder das organizações sociais e de base do povo colombiano, pedindo que seja respeitado este movimento, não seja criminalizado e lhes sejam dadas todas as garantias para seu desenvolvimento.

Agenda Colômbia-Brasil
A Solidariedade é dos Povos!!!  


[1] Declaración Publica. In: , Acessado: 26. Fev.2012
[2] La paz, un imperativo para Colombia. In: , Acessado: 28. Fev.2012
[3] http://www.colombianosporlapaz.es.tl/.
[4] http://www.marchapatriotica.org/
[5] A agenda do Caguan é um documento conjunto do governo do presidente Andres Pastrana e as FARC-EP de 12 pontos  para os diálogos de paz, com data de 6 de maio de 1999. Agenda Común por el cambio hacia una nueva Colombia. In: LOZANO GUILLÉN, Carlos A. Guerra o paz en Colombia?. Bogotá: Izquierda Viva, 2006, p. 147-151.
[6] La paz, un imperativo para Colombia. In: , Acessado: 28. Fev.2012
[7] “La cárcel o La tumba a los guerrilleros que no se desmovilicen”: Presidente Santos. In: < http://www.elpais.com.co/elpais/judicial/noticias/carcel-o-tumba-guerrilleros-desmovilicen-presidente-santos >, Acessado 18. Jan.2012.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

CAMPANHA NACIONAL CONTRA A VIOLÊNCIA E O EXTERMÍNIO DE JOVENS: Rio Grande do Sul realizou Seminário de Avaliação e Planejamento


Entre os dias 2 a 4 de dezembro de 2011, cerca de 50 pessoas estiveram reunidos para avaliar e planejar as ações da Campanha para 2012.

O Seminário de Avaliação e Planejamento aconteceu na Escola Fátima, em Sapucaia do Sul e contou com a presença de jovens e assessores das Pastorais da Juventude, da Juventude LibRe, Levante Popular da Juventude, CEBI-RS e ONG Trilha Cidadã.

O trabalho de assessoria metodológica foi um convite aceito por Alessandra Miranda, que compõe a Comissão Nacional de Assessores da PJ. Vinda de Brasília, Alessandra facilitou as reflexões, discussões e tomadas de decisão trazendo presente aspectos da organização nacional da Campanha. 

A noite de sexta-feira foi dedicada à retomada e revisão histórica da Campanha. Com a construção do Trem da História, foi possível fazer memória de atividades que vêm acontecendo desde 2008 quando na 15ª Assembleia Nacional das Pastorais da Juventude do Brasil se sonhou com a construção da Campanha. Também se trouxe presente a vida e martírio de Pe Gisley assassinada em 15 de junho de 2009, quando até então era assessor nacional do Setor Juventude e estava responsável com as articulações iniciais da Campanha. Foi se trazendo histórias, retomando a trajetória até 2011 onde se recordaram os momentos de formação, visibilidade e promoção da defesa da vida da juventude gaúcha.

A manhã de sábado foi dedicada a uma análise de conjuntura através do Mapa da Violência 2011 onde se apresentam dados alarmantes de vitimização juvenil. Alessandra também fez questão de trazer presente que esta realidade é uma situação característica da América Latina. Durante a tarde foi proposta a avaliação das ações que ocorreram ao longo de 2011: Formação de Multiplicadores, Roteiros para Grupos, Semana do Estudante, Assessorias Temáticas, Ações de Massa, Comemoração dos 30 anos das PJs do RS. Naquele momento também foram lançadas algumas pistas para o plano de ação de 2012. Ainda na parte da noite, com a presença de Pe Edson Thomassin, também da Comissão Nacional de Assessores da PJ e membro da ONG Trilha Cidadã, fizemos uma bonita e profética Celebração Eucarística.

Então, a manhã de domingo foi dedicada para a construção do Quadro de Ações de 2012. Alguns projetos foram mantidos, outros remodelados e novas pistas foram lançadas. Surge com mais força e intensidade o desejo de a Campanha pautar forma de superar a violência através da construção de uma cultura de paz e que a missionariedade seja uma dimensão presente nas atividades que envolvam as Pastorais da Juventude.

Com muita esperança e dedicação o Seminário de Avaliação e Planejamento 2011 foi um espaço de encontro e reencontro para jovens, militantes e assessores afirmar e reafirmar o compromisso coletivo na defesa e promoção da vida da juventude.


Fonte: Campanha Nacional Contra a Violência e o Extermínio de Jovens

domingo, 30 de outubro de 2011

A Autonomia da USP!


Não é comum ver livros como armas. Enquanto no dia 27 de outubro de 2011 a imprensa mostrou os alunos da FFLCH da USP como um bando de usuários de drogas em defesa de seus privilégios, nós outros assistimos jovens indignados, mochila nas costas e livros empunhados contra policiais atônitos, armados e sem identificação, num claro gesto de indisciplina perante a lei. Vários alunos gritavam: "Isto aqui é um livro!".
Curioso que a geração das redes sociais virtuais apresente esta capacidade radical de usar novos e velhos meios para recusar a violação de nossos direitos. No momento em que o conhecimento mais é ameaçado, os livros velhos de papel, encadernados, carimbados pela nossa biblioteca são erguidos contra o arbítrio.
Os policiais que passaram o dia todo da ultima quinta feira revistando alunos na biblioteca e nos pátios, poderiam ter observado no prédio de História e Geografia vários cartazes gigantes dependurados. Eram palavras de ordem. Algumas vetustas. Outras "impossíveis". Muitas indignadas. E várias poéticas... É assim uma universidade.
A violação da nossa autonomia tem sido justificada pela necessidade de segurança e a imagem da FFLCH manchada pela ação deliberada dos seus inimigos. A Unidade que mais atende os alunos da USP, dotada de cursos bem avaliados até pelos duvidosos critérios de produtividade atuais, é uma massa desordenada de concreto com salas superlotadas e realmente inseguras. Mas ainda assim é a nossa Faculdade!
É inaceitável que um espaço dedicado á reflexão, ao trabalho, à política, às artes e também à recreação de seus jovens estudantes seja ameaçado pela força policial. Uma Universidade tem o dever de levar sua análise crítica ao limite porque é a única que pode fazê-lo. Seus equívocos devem ser corrigidos por ela mesma. Se ela é incapaz disso, não é mais uma universidade.
A USP não está fora da cidade e do país que a sustenta. Precisa sim de um plano de segurança próprio como outras instituições têm. Afinal, ninguém ousaria dizer que os congressistas de Brasília têm privilégios por não serem abordados e revistados por Policiais. A USP conta com entidades estudantis, sindicatos e núcleos que estudam a intolerância, a violência e a própria polícia.
Ela deve ter autonomia sim. Quando Florestan Fernandes foi preso em 1964, ele escreveu uma carta ao Coronel que presidia seu inquérito policial militar explicando-lhe que a maior virtude do militar é a disciplina e a do intelectual é o espírito crítico... Que alguns militares ainda não o saibam, é compreensível. Que dirigentes universitários o ignorem, é desesperador.
Lincoln Secco, Livre Docente em História Contemporânea na USP

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Magistério espanhol inicia protestos contra cortes em educação

                                                                                                  Susana Vera/Reuters



Madri, 20 set (Prensa Latina) Os professores de rede secundarista de mais de uma dezena de regiões autônomas espanholas iniciam hoje o primeiro de vários dias de protesto contra os cortes na educação e em defesa do ensino público.

Na Comunidade de Madri, governada pelo conservador Partido Popular (PP), uns 21 mil docentes que dão aulas a 230 mil alunos foram convocados para uma greve de dois dias, em coincidência com a inauguração oficial do curso escolar.

À paralisação do magistério madrilenho se somarão, com diversas ações, os educadores da Galícia, La Castilla Mancha, Navarra e Cataluña, cujas administrações também decretaram um aumento das horas letivas para prescindir de professores interinos.

No caso deste território autonômico, os sindicatos do ensino público denunciaram que o incremento de 18 a 20 horas letivas deve levar a perda de três mil empregos e um corte orçamentário de 80 milhões de euros.

Sob pressão para reduzir custos, está-se-lhes ordenando aos pedagogos passar mais horas nas aulas, o qual significa que milhares de professores de apoio serão despedidos, de acordo com as centrais operárias.

Além de repercutir negativamente na qualidade do ensino, os ajustes orçamentais aplicados por numerosas autonomias, muitas delas dirigidas pelo PP, rondam os dois mil milhões de euros e deixarão sem emprego a uns 15 mil interinos.

Os ânimos esquentaram nas últimas horas, após que a presidenta de Madri, Esperança Aguirre, ter afirmado ontem que "se a educação é obrigatória e gratuita em uma fase, talvez não tem que ser gratuita e obrigatória em todas as demais fases. Espanha está em um momento delicadísimo, tão delicado e tão difícil que há que repensar a gratuidade de alguns serviços públicos", destacou Aguirre.

Suas declarações foram interpretadas por diversos setores sociais como um antecipado do que farão os populares, favoritos nas eleições gerais de 20 de novembro próximo, se chegarem ao Palácio da Moncloa (sede do poder central).

Andaluzia, Aragón, Baleares, Cantabria, Castilla e León, País Basco, Extremadura, Múrcia e a cidade autônoma de Melilla também aderiram aos protestos.

Na capital espanhola, o setor educativo, respaldado por pais e alunos, realizará nesta terça-feira uma manifestação baixo o lema A educação não é despesa, é investimento. Não aos cortes.


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

120 mil pessoas dizem não à educação de Pinochet

Mais de 120 mil pessoas participaram da última marcha convocada pelo movimento estudantil – já foram sete desde que começaram as ocupações e greves em colégios e universidades – que exige uma reforma estrutural no modelo educacional vigente no Chile há mais de 30 anos. A bandeira de luta – que se mescla com as dos trabalhadores do setor de mineração do cobre, dos desempregados, dos ecologistas, dos sufocados pelo sistema creditício, entre outros milhares de anônimos cansados dos abusos – é o fim da lógica de mercado no setor, além da volta da gratuidade da educação pública para os setores de menor renda da população. Cerca de 200 mil pessoas saíram tranquilamente às ruas do país para protestar contra um governo de direita que já não os representa.

A nova mobilização demonstrou a ampliação do apoio aos estudantes e o suporte que sustenta um movimento que já dura dois meses e que se fortaleceu com o apoio de 80% da sociedade às reivindicações estudantis, segundo as pesquisas.

E os números se concretizaram nas ruas. Na manifestação desta terça-feira, participaram também alunos de colégios privados do setor mais acomodado de Santiago, diversos professores, apoderados, trabalhadores públicos e representantes de sindicatos empresariais que aumentaram sua solidariedade com os estudantes, após a feroz repressão do governo de Sebastian Piñera na semana passada. Foram detidos mais de 600 jovens, devido à estratégia das autoridades de não autorizar a marcha para aumentar a raiva e criminalizar o movimento social.

O dia ensolarado de ontem ajudou a criatividade dos estudantes. Jovens disfarçados como o ex-presidente Salvador Allende, simbolizavam o que era o Chile antes do golpe militar de 1973: uma sociedade menos opulenta no consumo de bens e serviços, mas com um sistema educacional grátis para todos. “E vai cair, a educação de Pinochet”, escutava-se em meio à fila interminável de manifestantes”. Algumas quadras além, um avô mostrava com orgulho um cartaz que dizia: “marcho para que meus netos tenham educação gratuita como eu tive”.

O eixo das reivindicações do movimento estudantil é justamente uma demanda estrutural que foi bloqueada por décadas, desde o governo militar, passando pelos governos da Concertação. Por isso, nos desfiles de cada marcha, encontram-se grandes bonecos que são réplicas dos últimos quatro presidentes desde que, em 1990, o Chile retornou à democracia, representando as reformas cosméticas feitas na educação, aprofundando a participação do setor privado em um bem social.

Esse é também um dos motivos pelos quais a paciência dos cidadãos e estudantes está se esgotando: os bancos são os grandes protagonistas na histórica do lucro na educação, porque com o papel subsidiário do Estado, imposto por Pinochet, o setor financeiro privado pode administrar os recursos fiscais aplicados em uniformes para os jovens, mas com a cobrança adicional de juros mensais superiores inclusive aos cobrados sobre créditos imobiliários. Juan, um jovem formado em Direito, afirmava com outro cartaz: “estudei 5 anos e terei que pagar 20”.

Outras jovens universitárias, carregando uma bandeira chilena, reclamavam a mesma coisa: “É a mesma coisa que se eu tivesse comprado uma casa”, dizia uma delas.

Atualmente, mais de 100 mil estudantes encontram-se em situação de inadimplência, com uma dívida média de 2.700.000 milhões de pesos chilenos (mais de US$ 5.000). Em um país em que mais de um milhão de pessoas recebe por mês salários mínimos de US$ 377, é perfeitamente possível entender como os mais pobres ficam fora da universidade, enquanto que as classes medidas ficam empobrecidas por décadas.

O desenvolvimento das chamadas universidades-empresa é a cereja do bolo, uma vez que funcionam por meio de direções privadas que não asseguram a adequada informação de qualidade e transparência. Nelas, a gestão da educação obedece à lógica do baixo custo em salários de professores e material acadêmico, e altas receitas das mensalidades, usufruindo dos subsídios de educação fornecidos pelo Estado.

Uma estória a parte neste processo de aperta/afrouxa entre a sociedade civil e o governo de direita é a resposta mínima do presidente Piñera às demandas estudantis. Até o momento, foram feitos tíbios anúncios de maiores recursos (US$ 4 bilhões), sem detalhar, porém, como e a forma de financiamento.

Mostrando o figurino da ortodoxia neoliberal da atual administração, os ministros do setor econômico descartaram uma eventual reforma tributária para aumentar os impostos das empresas, o que significou jogar gasolina no fogo dos estudantes.

A jornada desta terça foi marcada por outro elemento que fez lembrar os piores momentos perpetrados pela ditadura de Pinochet: os supostos “infiltrados” da polícia chilena nas mobilizações.

Segundo as lideranças estudantis, em cada marcha há policiais à paisana nas ruas para incendiar os ânimos e agitar as marchas. Essa suspeita se fortaleceu em Valparaíso, cidade-porto onde se localiza o Congresso Nacional. Durante a marcha, um grupo de manifestantes identificou, denunciou e perseguiu um possível policial infiltrado, que escapou, escondendo-se no Congresso. As autoridades do governo garantiram que investigarão este fato a fundo.

Todos esses temas de fundo cruzam cada marcha dos estudantes chilenos, temperadas agora pelos chamados “panelaços” em apoio às mudanças estruturais na educação realizados por milhões de chilenos há uma semana em todas as cidades do país, tal como se fazia nos protestos contra a ditadura de Pinochet nos anos 80. As únicas pessoas que não ouviram essas demandas trabalham no Palácio de La Moneda, onde o presidente Piñera ainda não se pronunciou.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
Publicado em Carta Maior 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

12.05.11 - Brasil Dia 13 de maio será marcado por denúncias e lutas contra o racismo

Considerado como dia da abolição dos escravos no Brasil, o 13 de maio está longe de ser uma data comemorativa para o movimento negro no país. O dia ganhou outro significado para negros e negras, que passaram a chamá-lo de "Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo”. Em São Paulo, a data será marcada por mobilizações e atos públicos. 

Douglas Belchior, integrante do Conselho Geral da União de Núcleos de Educação Popular para Negros/as e Classe Trabalhadora (Uneafro), explica que o movimento negro no Brasil "ressignificou” o 13 de maio, transformando-o em uma data de luta. "O dia de 13 foi visto como dia da libertação dos escravos, mas os negros desmentiram, mostrando que continuam precarizados, escravizados”, comenta.

Desemprego, falta de acesso à moradia e aos serviços de saúde, educação de baixa qualidade, preconceito, discriminação racial, violência. Esses são apenas alguns problemas ainda enfrentados por negros e negras no Brasil. Belchior observa que, apesar de alguns avanços – principalmente nas políticas públicas voltadas para a população negra no país -, eles "são muito tímidos”. 

O integrante da Uneafro chama atenção também para o racismo sofrido pelos/as negros/as. Segundo ele, crime já está naturalizado pela sociedade e pelo Estado brasileiro. "O racismo já se enraizou nas relações sociais e pessoais”, comenta, lembrando, por exemplo, que negros e negras são, muitas vezes, alvos de piadas e chacotas.

Neste ano, o "Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo” chama atenção para a violência contra jovens negros. Dados do "Mapa da Violência 2011 – Os jovens do Brasil” revelam que 12.749 negros/as foram assassinados/as no ano de 2008. De acordo com o relatório, entre 2002 e 2008, as taxas de homicídios de jovens brancos caíram 23,3% enquanto que as de jovens negros cresceram 13,2%. "Isso mostra o avanço do genocídio contra a população negra”, observa Belchior.

Atividades

"Parem de matar os nossos filhos”. É com esse grito que organizações e movimentos do povo negro realizam, nesta semana, ações contra o racismo e a violência. Hoje (12), segundo Douglas Belchior, entidades sociais entregaram na Assembleia Legislativa de São Paulo um dossiê sobre a violência contra população negra e demandaram uma CPI sobre o genocídio negro e a ação da polícia militar de São Paulo.

Amanhã (13), a atividade começará às 12h em frente ao Teatro Municipal, na praça Ramos de Azevedo. Às 18h, haverá um ato político seguido de cortejo cultural pelas ruas do Centro. Além do rechaço à violência contra a população negra, os manifestantes reivindicam: reparações históricas para o povo negro brasileiro; manutenção das cotas nas universidades e ampliação para todas as instituições de ensino superior públicas; manutenção do decreto que regula a titulação dos territórios quilombolas; tipificação dos casos de violência policial; entre outras.

 Escrito por Karol Assunção, do Adital

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Ato em apoio à revolução no Egito em São Paulo nesta sexta-feira, 17H, AV. PAULISTA, N. 900.


A Frente em Defesa do Povo Palestino, que reúne mais de 50 instituições, entre centrais sindicais, movimentos sociais e entidades árabes-brasileiras e islâmicas, além de indivíduos solidários à causa, realiza na próxima sexta-feira (11/2) ato em apoio ao movimento popular no Egito contra a ditadura Mubarak, a favor da autodeterminação dos povos e da liberdade de expressão. A concentração será em frente ao prédio da Gazeta, na Av. Paulista, 900, a partir das 17h.


A onda de protestos que teve início na Tunísia – conhecida como a Revolução do Jasmim, que culminou com a queda do ditador naquele país – se estendeu ao Egito e evidencia o esgotamento dos regimes autoritários ali e em outros destinos da região. Apesar das inúmeras prisões arbitrárias, repressão e mortes, as manifestações vêm se intensificando a cada dia, com milhares de pessoas nas ruas dia e noite, desafiando inclusive o toque de recolher imposto pelo regime totalitário.


Os EUA e Israel buscam como saída para o imbróglio que se formou uma transição denominada pacífica e moderada para uma “democracia” em que os povos do Egito e da Tunísia continuem sofrendo os horrores impostos por uma situação de total submissão aos interesses do império. Como parte dessa estratégia, Mubarak designou um comitê para reforma constitucional e anunciou que não continuará no governo após a realização de eleições em setembro próximo, mas não admite deixar o poder antes disso. Ao que a população, cansada de exércitos nas ruas, prisões, desaparecimentos e outras arbitrariedades, diz não. Sua exigência é de uma mudança radical imediata. Nesse sentido, as manifestações do povo no Egito cumprem papel crucial na emancipação e autodeterminação dos povos do Oriente Médio. E o sentimento crescente é que a solução para seus problemas imediatos passa necessariamente pelo rompimento com o imperialismo. As iniciativas em São Paulo vêm se somar a esse movimento, pelo fim da tirania, por democracia e liberdade.
FRENTE EM DEFESA DO POVO PALESTINO

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sem-teto seguem em luta por moradia

A reportagem do jornal Brasil de Fato, destoante da abordagem dos grandes meios como a FSP, traz a situação das famílias ligadas aos movimentos de moradia que reivindicam a função social da propriedade. Nesse caso, locais que estão abandonados há anos e amontoam dívidas públicas. 

Michelle Amaral, do Jornal Brasil de Fato

A ocupação de quatro prédios no centro da cidade de São Paulo promovida pela Frente de Luta por Moradia (FLM) completa 43 dias nesta terça-feira (16). Com a reintegração de posse de dois destes prédios marcada para os próximos dias, as famílias permanecem em luta pelo direito à moradia.


Na última quinta-feira (11), os cerca de três mil sem-tetos das ocupações dos prédios das avenidas Ipiranga, Nove de Julho, Prestes Maia e São João realizaram uma caminhada pelo centro da capital paulista.


As famílias tentaram entregar sua reivindicação ao presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Antonio Carlos Rodrigues, e à Comissão de Direitos Humanos, mas não conseguiram. Rodrigues não estava na Câmara. A comissão estava em reunião e não permitiu a entrada dos representantes da FLM.


Os sem-teto seguiram até o Ministério Público de São Paulo, onde protocolaram um processo no qual denunciam os imóveis abandonados. “A ação pede a instalação de inquérito para investigar os prédios abandonados que não tem função social”, explica Osmar Silva Borges, da coordenação geral da FLM. Além disso, são solicitadas providências em relação ao atendimento das famílias de baixa renda que não tem moradia.


Segundo Borges, com este processo espera-se a realização de uma audiência com representantes das famílias sem-teto e autoridades municipais e estaduais para que sejam discutidos encaminhamentos em relação ao direito à moradia. O balanço que o coordenador do FLM faz é de que “o Estado está sendo ineficiente na promoção de políticas públicas voltadas à moradia”.

Reintegração de posse


Está marcada para a próxima quinta-feira (18) a reintegração de posse do prédio da Avenida Nove de Julho. Nele, encontram-se cerca de 900 sem-teto. O prédio pertence ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e, desde 1997, é reivindicado para moradia popular.


O prédio da Avenida Ipiranga teve a reintegração marcada para o dia 8, mas adiada para o dia 25 deste mês, por conta de uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). O tribunal atendeu a um pedido da Polícia Militar que alegou dificuldades na desocupação devido ao grande número de ocupantes. O prédio, de propriedade da HM Engenharia, que faz parte do grupo Camargo Corrêa, está ocupado por cerca de 1.200 pessoas, entre elas 373 crianças.


A FLM entrou com recurso para impedir as reintegrações, mas ainda não obteve resposta. De acordo com Borges, o movimento está trabalhando “na tentativa de derrubar as liminares”. “Mas é bem provável que não consigamos reverter esse quadro, porque temos um histórico de que o judiciário trabalha em favor dos proprietários desses prédios”, explica o coordenador da FLM.


Caso as reintegrações aconteçam, ele explica que as famílias não têm para onde ir. “Vamos acampar na rua, vamos montar uma favela no centro de São Paulo”, conta Borges. Segundo o coordenador da FLM, os sem-teto acreditam que “já que o Estado está dando proteção aos proprietários, não resta outra saída do que montar uma favela no centro” da capital paulista.


Reivindicações


A FLM reivindica a desapropriação dos prédios ocupados, que estão abandonados há muitos anos e possuem irregularidades ou dívidas junto ao Estado. Como também pedem a desapropriação de outros imóveis sem função social na capital paulista.


Além disso, o movimento pede a apresentação de um cronograma de atendimento em unidades habitacionais da COHAB, CDHU e Minha Casa, Minha Vida para as 1.200 famílias assistidas no programa de atendimento emergencial e Parceria Social, entre outras reivindicações.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Crianças em ação: Por escola, terra e dignidade


No mês de outubro se comemora o Dia das Crianças.


A data foi oficializada na década de 1920, pelo decreto nº 4.867, de 5 de novembro de 1924.


Mas só se tornou “popular” em 1960, quando a fábrica de brinquedos Estrela, em conjunto com a Johnson & Johnson, fez uma promoção para aumentar suas vendas, lançando a "Semana do Bebê Robusto".


Desde então a criança é uma “peça chave” para o consumo. O mercado tenta manipular seus desejos para promover vendas de produtos de todo tipo.


O MST fez do mês outubro uma referência de luta das crianças Sem Terrinha.


Desde 1994, buscamos desenvolver os Encontros Sem Terrinha nos estados onde estamos organizados. Os encontros são momentos de muita mística para toda a organização, pois as crianças se envolvem desde sua preparação até a realização.


É um espaço em que as crianças levam seu jeito de lutar, brincando, aprendendo e reivindicando.


Neste ano, 15 estados realizarão encontros estaduais e regionais, reunindo mais de 12 mil crianças em todo o Brasil.


O lema que nos motivará é o que construímos ao longo de nossa história e ainda é muito atual: “Por escola, terra e dignidade!”


Do site do MST

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Semana de Movimentos Sociais - ECA/USP

Divulgamos aqui a Semana de Movimentos Sociais, organizada por diversas entidades, que acontecerá ao longo desta semana na ECA/USP. A Juventude LibRe defende o projeto estratégico de transformação revolucionária, a Universidade Popular, com vistas a estabelecer um estreito canal de debate e ação junto aos movimentos sociais/populares.



SABADO (18/09)


VISITA A ESCOLA NACIONAL FLORESTA FERNANDES (*inscrição no anexo 2)



Segunda (20/09):
 14-16h: Mobilização nas unidades

18-20h: Movimentos sociais, universidade e sociedade – Sergio Gomes e ILAESE


Terça (21/09)


14-16h: Arte e comunicação em luta – Coletivo audiovisual da Vila Campestina. Wellington Lopes Goes
 16h18h: SARAU

18-20h: Movimento estudantil pra quê: uma reflexão sobre nossos desafios – Virtude, Comissão organizadora da semana

20h: Chorando em terças – roda de chorinho


Quarta (22/09)

14-16h: Onde estao os negros? Movimento negro e universidade – MNU, Nuclo de consciencia negara USP, Circulo Palmarino, Quilombo raça e classe

16-18h: Do armario ou no armario! A luta LGBT – Prisma e Marcelo Daniliauskas

18-20h: Mulheres em movimento – Coletivo Dandara, Marcha Mundial das mulheres, movimento mulheres em luta


Quinta (23/09)

14-16h: A luta no asfalto- Movimentos sociais urbanos – MTST, Terra Livre, Frente de luta por moradia, MPL

18-20h: A luta na terra – Movimentos sociais camponeses e o campo brasileiro – MAB, MST, Ariovaldo Oliveira

QuintaiBreja com atrações especiais!


Sexta (24/09)

14-16h: Lutar é crime? Criminalização dos Movimentos sociais – Intervozes, Leandro L Barbosa, MNPR, MST, MTL

18-20h: Mundo do trabalho – para onde vamos depois da universidade? – CONLUTAS, Oposição alternativa da APEOSP, Sintusp, Intersindical