terça-feira, 29 de setembro de 2009

Governo provisório decreta estado de sítio em todo o país

O presidente provisório de Honduras, Roberto Micheletti, suspendeu, no sábado (26), garantias constitucionais, dentre elas a liberdade de expressão, por um prazo de 45 dias. A medida permitiu o fechamento, hoje (28), da Rádio Globo e do Canal 36, veículos contrários ao golpe de Estado que, há exatamente três meses, depôs e expulsou o presidente Manuel Zelaya do país.
Micheletti aprovou o estado de sítio no último dia 22, mas a medida só foi publicada no Diário Oficial La Gaceta no último sábado. Ela ainda terá que ser enviada ao Congresso Nacional.

O mandatário provisório suspendeu, por 45 dias, os artigos 69, 72, 78, 81 e 84 da Lei de Polícia e Convivência Social e, com eles, as liberdades de expressão, circulação e reunião.

O artigo 69 diz que "a liberdade pessoa é inviolável e só com ajustes às leis poderá ser restringida ou suspensa temporariamente". Um trecho do artigo 69, também suspenso, assegura que "é livre a emissão de pensamento por qualquer meio de difusão".

O artigo 78 garante "as liberdades de associação e reunião sempre que não sejam contrárias à ordem pública e aos bons costumes". O artigo 81 assegura que "toda pessoa tem o direito de circular livremente" no território nacional. Já o 84 diz que "ninguém poderá ser detido sem mandato escrito por autoridade competente".

Desse modo, o governo provisório pode desocupar toda instituição pública tomada por manifestantes; fechar meios de comunicação que "ofendam a dignidade humana, aos funcionários públicos ou atentem contra a lei"; e deter pessoas consideradas suspeitas.

Às 5h20 de hoje (horário local; 8h20 em Brasília), militares invadiram a sede da Rádio Globo. Eles arrombaram os portões, entraram nos estúdios e suspenderam a transmissão. O mesmo fizeram no Canal 36.

Os militantes pró-Zelaya temem que o governo provisório ainda feche as emissoras Uno (da cidade de San Pedro Sula) e a Rádio Progeso (de El Progreso), já que a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) está autorizada a suspender qualquer veículo de comunicação.

Micheletti pede que Lula defina status de Zelaya

O presidente de fato, Roberto Micheletti, deu ontem (27) um prazo de dez dias para que o governo brasileiro defina o status de Zelaya, que se mantém abrigado na embaixada brasileira, em Tegucigalpa, desde o último dia 22. Caso o país não se pronuncie no prazo estipulado, a embaixada perderá seu status diplomático e poderá ser invadida pelas forças armadas hondurenhas.

Os golpistas exigiram que o Brasil outorgasse o asilo a Zelaya formalmente ou o entregasse para julgamento, por seus supostos crimes de violação à Constituição do país. Na noite de ontem, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, repudiou a exigência de Micheletti e reafirmou que Zelaya é "hóspede" da embaixada.



Publicado originalmente em: www.adital.org.br

sábado, 26 de setembro de 2009

De América Latina, de Abya Yala, de América Mestiça, de América Criolla e de suas Contradições



Carlos Walter Porto-Gonçalves[1]
Edir Augusto Dias Pereira[2]


Certa vez, quando me deslocava pela cidade de São Paulo, vi um grafite que dizia: “essa boca que sempre me beijou agora me nega um sorriso”. A frase, aparentemente romântica, se mostrava mais instigante para a reflexão do que a declaração de amor explícita quando se presta atenção ao lugar onde estava inscrita: o muro de um cemitério. Ali, definitivamente, vi que uma frase nunca pode ser dissociada do lugar onde está inscrita.

Recentemente (2004) os povos indígenas começaram a inserir no léxico político um novo nome, Abya Yala, para designar o continente que, desde finais do século 18 e, sobretudo desde o século 19, passamos a conhecer por América[3]. E, sendo mais específicos, desde a segunda metade do século 19, por iniciativa do colombiano José Maria Torres Caicedo, América Latina é o nome como passou a ser designada a parte desse continente que nos cabe viver. Não olvidemos que os espanhóis designavam essa região por Índias Ocidentais que, diga-se de passagem, abrangia uma vasta região que ia desde o Caribe, passava por México e Peru e suas áreas adjacentes, e ia até as Filipinas, terra de Filipe. E que Portugal ignorava essa designação de América chamando sua colônia pelo nome do pau com que começaram a explorar esse território que nos deu um adjetivo pátrio incômodo – brasileiro[4].

Assim, o nome América foi enunciado pelas elites criollas para se afirmar com/contra as metrópoles européias, a geografia aqui servindo para afirmar uma territorialidade própria que se distinguia das metrópoles européias, e o nome América Latina[5] afirmado por José Maria Torres Caicedo, com seu poema Las Dos Américas, publicado em 1856, para nominar o que Bolívar já havia denunciado em 1826 contra a Doutrina Monroe (1823), inscrevendo assim a distinção entre uma América Anglo-saxônica e uma Latina que, mais tarde, levaria José Martí a falar de “nuestra América”. Enfim, um anti-imperialismo precoce distingue as duas Américas.

Ora, América Latina ainda é uma América que se vê européia – latina – e, com isso, silencia outros grupos sociais e nações que longe estavam da latinidade, a não ser sofrendo seus desdobramentos imperiais que tão marcadamente caracteriza a tradição eurocêntrica. Afinal, nos dirá Walter Mignolo, foi a latinidade e não a africanidade ou a indianidade que se impôs como nome do subcontinente[6]. De certa forma é isso que os povos originários de Abya Yala querem afirmar com seu nome próprio por meio do qual buscam se re-apropriar do território que lhes foi arrebatado que, como se vê, não definitivamente. Mas a expressão, a princípio, também deixa de fora os afrodescendentes e outros grupos subalternos.

O interessante é que a ideologia da mestiçagem buscou exatamente suprimir essa tensão entre os diferentes grupos sociais e, com isso, introduzindo uma identidade – a mestiça – que silencia, sobretudo os grupos sociais que foram racializados pela tradição colonial. As ciências sociais têm sofrido com essa transposição de conceitos oriundos das ciências da natureza, como esse de mestiçagem que, no fundo, dá sobrevida ao pseudo-conceito científico de raça. Enfim, a ideologia da mestiçagem contribui para que se olvide a construção epistêmica das relações sociais e de poder de modo racializado. Afinal, aqui na América não havia índios, assim como na África não havia negros. Foi o encontro colonial, La Boétie chamou mal-encontro, que classificou o outro pela cor da pele e, com isso, instituiu um sistema de classes sociais racializado, conforme Aníbal Quijano nos esclarece[7]. Ou como bem disse nos anos 60 o intelectual e ativista aymara Fausto Reinaga: “Danem-se, eu não sou um índio, sou um aymara. Mas você me fez um índio e como índio lutarei pela libertação”. Definitivamente há uma racialização na instituição das classes sociais entre nós.

É sintomático que a elite criolla tenha nos brindado com a expressão América Latina e não América Criolla que, talvez, nos ajude a dar conta das contradições que se inscrevem nesse continente e que nos atravessa de norte a sul. E nos diz muito do poder de enunciação dos diferentes grupos sociais, no caso, a hegemonia criolla que, como toda hegemonia dominante, esconde seu lugar de enunciação. Assim, a elite criolla não nomeou o continente com seu lugar de enunciação e, por isso, não nos ofereceu uma América criolla.

Mas se criollo é aquele de outro lugar nascido na América, a expressão não tem o mesmo sentido quando vista dos Andes e da América Central ou quando vista do Caribe e do Brasil. Se na América andina e centro-americana ela está claramente identificada com o fidalgos, ou seja, com os filhos d´alguém (de onde vem a expressão fidalgo), no Caribe e no Brasil a expressão crioulo se refere aos negros ou seja aos filhos de ninguém, aos dannés, ou seja, aos condenados da terra de Franz Fanon. A expressão de Robson, jogador do Fluminense dos anos sessenta, “Já fui negro, sei o que isso significa” é emblemática do que está implicado nos debates ora em curso em torno do tema racial.

Não vai ser invisibilizando essa tensão que seremos capazes de superar as contradições que nos habitam enquanto história in-corpo-rada há 500 anos. A experiência ora em curso na Bolívia e no Equador, onde o protagonismo indígena é indiscutível, mostra que é possível, com a interculturalidade, superar as limitações dos estudos culturais estadunidenses e seu multiculturalismo e ainda o pós-modernismo[8] que mantendo cada macaco em seu galho dá azo a nefastos fundamentalismos essencialistas. Afinal, é possível superar as xenofobias de inspiração racistas a partir de outros projetos epistêmicos e políticos e isso implica aceitar que a tradição liberal com seu princípio individualista tem cor e lugar de origem: a Europa. Mas, diga-se de passagem, não toda a Europa, mas uma Europa branca, falocrática e burguesa. Enfim, essa tradição é provinciana e como todo mau provincianismo pensa que seu mundo é O Mundo. E o pior provincianismo é aquele que detendo poder tenta se apresentar como uni-versal olvidando a pluri-versalidade do mundo. É bem o caso do eurocentrismo.

O nome próprio do espaço

De fato, nomear os lugares envolve uma apropriação. O espaço conforme é designado é apropriado pelos sujeitos, enfim, é tornado espaço próprio (território). Mas, cada qual se vê implicado nas designações/apropriações dos outros, dando-lhe outros sentidos sempre em circunstâncias historicamente indeterminadas[9]. Ao transformarmos o significado do termo com que nos designam, mudamos o modo de nos relacionarmos e de nos representarmos. Que designação melhor denomina o espaço em que vivemos com as nossas diferenças? Essa é a questão de fundo que envolve essas denominações que estrategicamente vêm servindo de invólucro e determinando conteúdo para esse continente.

Este texto busca explicitar que a luta pela classificação do espaço está profundamente implicada em lutas/relações sociais e de poder que se travam há pelo menos 500 anos nesses espaços “americanos”. É, desse modo, um embate entre política de identidade e o nosso investimento identitário na política (Mignolo, 2008) e, assim, há uma geopolítica para além (ou para aquém) dos Estados que, na verdade, os constituem. Afinal, o Estado ao se querer nacional se quer nascido naturalmente e é aí que reside todo o ocultar político de sua invenção (instituição), a começar pelo fato de se querer um território uni-nacional onde quase sempre residem múltiplas nacionalidades, distintas territorialidades. Enfim, há uma luta epistêmica e política que se trava em torno do espaço. Mudar o nome, obviamente, não significa mudar o objeto, nem o sentido do objeto porque isso depende da autoridade de quem nomeia, de quem designa (Bourdieu), e com que finalidade, consciente ou não, dá nome aos lugares. E essa própria autoridade é construída como bem destaca, nesse caso, Gramsci com seu conceito de hegemonia.

Enfim, haveremos de compreender essas lutas sociais nesses espaços reunidos sob a denominação de América como lutas epistêmicas e políticas. Isso significa muito mais do que mudar o nome, já que as “identidades nacionais” jogam ainda um papel político e simbólico central nessas lutas. Apesar de tudo, nós brasileiros, em geral, nunca nos sentimos latino-americanos. Há uma especificidade na construção identitária do brasiliano[10]. E as diferenças não podem caber em baixo do mesmo termo guarda-chuva. Não se trata, portanto, de criar um novo termo guarda-chuva ou de criar uma identidade que suprima diferenças, em nome de uma identidade verdadeira.

O que, afinal, estamos enfrentando é um deslocamento profundo no sentimento e no sentido de pertença de grupos a um espaço que lhes foi subtraído, inclusive cognitivamente. Por isso, a busca da identidade e de alguma unidade precisa levar em conta as diferenças – as diferenças coloniais, de que nos fala Walter Mignolo, em particular. Tudo indica que precisamos construir alternativas às alternativas que-aí-estão, conforme Boaventura de Souza Santos. Isso significa que a unidade que devemos buscar é a unidade de projetos coletivos de emancipações e libertações sociais, conforme sugere Hector Diaz-Polanco[11]. Se cambiar o nome do espaço envolve a construção dessas alternativas e projetos outros, temos que agenciar estrategicamente esse dispositivo. Afinal, “o espaço importa” e, assim, deve importar o modo como o nomeamos, porque isso acaba nos constituindo em nossa plenitude política e epistêmica ao conquistarmos o direito de nomear. A transmodernidade, de Enrique Dussel, e a interculturalidade, proposta a partir do mundo dos povos originários, são mais inclusivas do que as tradições eurocêntricas, sobretudo liberais (multiculturalismo e pós-modernismo). Cabe avançar no modo como essa proposta dialógica se inscreve no mundo material dos territórios com todo esse investimento de valores que admite o outro na sua diversidade. E que as relações de poder não se confundam com relações de dominação[12].


[1] Professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense. Pesquisador do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - e de CLACSO (GT Hegemonia e Emancipações). Ganhador do Prêmio Casa de las Américas 2008 de Literatura Brasileira. Ex-Presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (1998-2000).
[2] Professor da Faculdade de Educação da UFPA – Campus de Cametá.
[3] Ver o verbete Abya Yala, de Carlos Walter Porto-Gonçalves, publicado na versão em língua espanhola da Latinoamericana: Enciclopedia Contemporânea da América Latina e Caribe, Madrid, 2009.
[4] - Que originariamente designava o português que vivia de explorar o Brasil. Ver As Identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC, de José Carlos Reis. Ed. FGV, Rio de Janeiro, 1999.
[5] Admite-se também que o termo teria sido utilizado pelo do filósofo chileno Franciso Bilbao no mesmo ano.
[6] Agradeço ao Prof. Pedro Quental essa observação.
[7] Quijano, Aníbal, 2007 [1999] O que é essa tal de raça? In dos Santos, Renato Emerson (org.) Diversidade, espaço e relações étnico-raciais: o Negro na Geografia do Brasil. Ed. Autêntica, Belo Horizonte.
[8] Walter Mignolo diz que o pós-modernismo ainda permanece eurocêntrico em sua crítica à modernidade por não ser capaz de dar conta da colonialidade que lhe é constitutiva.
[9] Com essa idéia tentamos escapar de um determinismo histórico quase sempre reducionista, sem abrir mão das determinações que sendo históricas são, sempre, dialeticamente abertas. Enfim, as indeterminações não são indeterminadas, são historicamente situadas e, assim, também geográficas.
[10] O termo é dicionarizado (Ver o Dicionário do Aurélio Buarque de Hollanda) e com seu uso procuramos nos distanciar e acusar um sentido oculto de brasileiro – o que vive de explorar o Brasil – com o qual não nos identificamos.
[11] Ver Diaz,-Polanco, Héctor. 2004. El Canon Snorri, Ed. UACM, México.
[12] Conforme nos ensina Pierre Clastres, 1988 [1974]. A sociedade contra o Estado, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves.


Publicado originalmente no site da Comissão Pastoral da Terra (CPT)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Por que o Brasil se arma?


Da Radioagência NP


A América Latina assiste a crescentes gastos militares. Números divulgados por diferentes centros de estudos sul-americanos e europeus variam, mas todos revelam que nunca se gastou tanto com arsenal bélico como nos últimos anos. O Instituto de Estudos para a Paz de Estocolmo afirma que em 2008 o investimento em armas no continente chegou a US$ 34 bilhões. Para a Rede de Segurança e Defesa da América Latina (Redsal), a despesa foi ainda superior: US$ 48 bilhões. Já o Centro de Estudos Nova Maioria, fala US$ 51 bilhões. Lideram os gastos o Brasil, a Venezuela e a Colômbia. Os três países estão torrando bilhões de dólares e euros. O parceiro privilegiado do Brasil no bazar de compras é a França; no caso venezuelano, a Rússia; já os colombianos têm como parceiros os EUA.

A gastança com arsenal bélico tem levado à interpretação de que estamos diante de uma escalada armamentista na região. As justificativas por parte dos países particularmente Brasil, Venezuela, Colômbia e Chile , para a compra bilionária de armamentos são duas. A primeira delas é que se trata de mera reposição de equipamentos obsoletos. O segundo argumento está relacionado ao direito de autodefesa. O argumento nesse caso utiliza-se da expressão “poder dissuasório” que esteve muito em voga nos anos de guerra-fria, ou seja, a beligerância do outro é inibida pela capacidade de também eu me tornar beligerante.

O Brasil está entre os que mais gastam no continente. Apenas com a França, o país estaria fechando acordos na ordem de R$ 37,5 bilhões na compra dos submarinos, caças e helicópteros. Trata-se da maior compra bélica da história brasileira.

A explicação mais plausível para a escalada armamentista brasileira para além do surrado argumento de que se trata de reequipamento é o fato de que o país almeja se tornar uma potência militar. Outra motivação explícita do país é a ambicionada vaga no Conselho de Segurança Permanente da Organização das Nações Unidas (ONU). Ambição que vem desde a época de Fernando Henrique Cardoso. Curiosamente, os cinco países que já têm submarino com propulsão nuclear “algo que o Brasil deseja” são justamente os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

É nessa perspectiva que deve ser compreendida a opção brasileira em negociar com a França. Não se trata de mera concorrência por alguns dólares a mais ou a menos, mas de opção política. A leitura do governo é de que os Estados Unidos (EUA) são um rival no continente. Segundo essa interpretação, os EUA não têm interesse em fazer um acordo que destaque o Brasil na América do Sul, uma vez que o seu parceiro privilegiado já é a Colômbia. E ainda mais, tampouco estariam os EUA dispostos a transferir tecnologia armamentícia para o Brasil, o que a longo prazo apenas fortaleceria um oponente de peso no continente.

A parceria com a França vai muito além do acordo de compra de submarinos e de helicópteros. O Brasil de Lula vê a França como o amigo rico e preferido do Norte. Destaque-se que a França foi uma das primeiras vozes do Primeiro Mundo a apoiar uma reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o que pode permitir o ingresso do Brasil entre seus membros permanentes. É nesse contexto que deve ser compreendida a polêmica em torno dos caças: A opção pelo Rafale, da empresa francesa Dassault, tem a ver com o caráter político da decisão. O próprio Lula já afirmou que a decisão é política e estratégica.

A corrida armamentista no continente surpreende porque se esperava que as prioridades dos chamados governos progressistas da América Latina fossem outras. Num continente onde os problemas sociais ainda são gigantescos, a opção em gastar bilhões com armas é no mínimo questionável.

O caso brasileiro é exemplar nesse sentido. O país ocupa o 70º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH); 22% ou 40 milhões de brasileiros, vivem abaixo da linha de pobreza; aproximadamente 25% da população é analfabeta ou não consegue compreender o que está lendo; no país ainda persiste o trabalho infantil.

Nesse contexto, é de se perguntar se gastar bilhões de reais com armas é prioridade. E tudo isso se dá sem resistência. Não se vê reações no mundo político a direita e a esquerda estão juntas no silêncio , no movimento social, nas Igrejas.



Cesar Sanson é pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores e doutor em sociologia pela UFPR.

domingo, 20 de setembro de 2009

II Congresso da Refundação Comunista

"Eles pensaram que estava tudo acabado em Mahagonny. Não, responderam os homens de Mahagonny!" (Mahagonny Songspiel, de Brecht e Weil)

Camaradas,

Em outubro de 2005 realizou-se o I Congresso convocado pelo Conarc, que constituiu a Refundação Comunista como organização partidária autônoma. Desde então, passaram-se três anos, com acontecimentos relevantes no mundo inteiro. Os eventos internacionais recentes, articulados ao desenvolvimento da situação política nacional, especialmente, aos efeitos da crise do capitalismo, às iniciativas de resistência dos trabalhadores e à proximidade das eleições de 2010, colocam novos desafios à militância.

Em novembro será realizada em Belo Horizonte, MG, a sessão nacional do II Congresso. Convidamos-te a conhecer o blog da Refundação Comunista, ler os dois corpos de teses que referenciam as discussões, a ajudar com sugestões ou críticas e a acompanhar a Tribuna de Debates, espaço em que os militantes, simpatizantes e aliados contribuem com textos adequados à publicação e pertinentes aos temas em pauta.

Saudações comunistas,

Comissão Política Nacional da RC

http://refundacaocomunista.blogspot.com/

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Globo e Record têm concessões renovadas sem debate público

Não é de hoje que as concessões públicas de rádiodifusão estão em debate no país, porém longe de alcançar as camadas realmente atingidas pelo ‘4º Poder’. Comummente denominados assim, os grandes veículos que dominam, hegemonicamente, a produção midiática e consolidam o processo de monopolização através das empresas de comunicação.
Percebe-se uma intensificação destes métodos, sobretudo, a partir da década de 60/ditadura militar com a reprodução de realidades virtuais que ameaçam a pluralidade de discursos, diversidade de abordagens e capacidade crítica, desfigurando a liberdade de imprensa por uma liberdade de empresa dentro do contexto de democracia liberal.




Do Observatório do Direito à Comunicação

As concessões de TV de quatro emissoras da Rede Globo e duas da Record foram oficialmente renovadas na última quinta-feira (10) pelo Congresso Nacional. Assim, as duas empresas ganham permissão para transmitir suas programações por mais 15 anos. No caso da Globo, esse prazo vai até 2022 e da Record, até 2013. Assim como acontece com os outros processos de renovação de outorga na radiodifusão, não houve a participação dos mais interessados no assunto: o público.

As renovações em questão ganham ainda mais importância por se tratarem de emissoras próprias das duas empresas, que respondem hoje por mais de 60% da audiência de TV no país. Além disso, nos dois casos as outorgas renovadas são para as chamadas “cabeça-de-rede”, que centralizam maior parte da produção que é transmitida pelas afiliadas espalhadas pelo país. As emissoras da Rede Globo cujas concessões foram renovadas ficam em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Já as da Record estão situadas no Rio e em Itajaí (SC).

A análise dos processos, que passam por dois ministérios – o das Comunicações e a Casa Civil – e pelo Congresso Nacional, durou pouco mais de dois anos. Este prazo contrasta com a morosidade registrada para os demais processos de renovação. Há casos de emissoras funcionando com licença vencida há mais de 10 anos.

O fato de essas emissoras influenciarem quase toda a população brasileira parece não ter sido motivo suficiente para uma análise menos burocrática e mais transparente de seus pedidos de renovação das outorgas. Na Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara Federal - uma das principais instâncias que analisam esses casos -, por exemplo, a aprovação das renovações foi unânime. A participação da sociedade no processo se restringiu a uma Audiência Pública na Câmara, em novembro de 2008, que tratou da renovação de um conjunto de várias licenças, entre elas as da Globo e Record.

Embora esta audiência tenha sido um marco no histórico de nenhuma transparência com que são tratados os processos de outorga e renovação de licenças de rádio e TV, a avaliação é de que, individualmente, os processos não foram devidamente publicizados. “Não houve um processo de discussão pública”, enfatiza a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), integrante da CCTCI.


Fonte: www.direitoacomunicacao.org.br

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Belo Monte: audiência pública em Belém debate impactos do projeto

Ocorre hoje, 15, em Belém, às 18h, a audiência pública para debater a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu.
Setores contra e a favor organizam manifestações em frente ao Centro Cultural Tancredo Neves (CENTUR), órgão estadual.
As audiências iniciaram desde o dia 10 no sudoeste do estado.

Em tese as audiências servem para que a sociedade tenha acesso aos dados sistematizados sobre a obra e conheçam os possíveis impactos socioambientais, que a mesma possa provocar caso construída.
A construção de megas hidrelétricas é um dos eixos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para a Amazônia do governo federal.

11 áreas indígenas e 66 municípios serão impactados pela obra. Faz mais de 20 anos que o projeto de construção da hidrelétrica existe. Kakaraô foi o primeiro nome.

As audiências públicas significam um avanço no processo de instalação de grandes projetos na região. Mas, a diferença das forças envolvidas e a capacidade de discernimento para analisar questões marcadas por uma linguagem técnica colocam em desvantagem no “debate” boa parte da população nativa.
A audiência acaba por desembocar num monopólio de discurso de especialistas no assunto. Sem sublinhar uma relativa predominância do poder político e econômico na mobilização e convencimento da população.

O projeto envolve volume significativo de recurso público. O que mobiliza empreiteiros, médios comerciantes e políticos locais no mesmo flanco.

Uma fatia da polução local alinhada na defesa do meio ambiente, através da Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP) tem manifestado questões polêmicas sobre o empreendimento e os limites dos estudos e das audiências públicas.

Por conta de tal contexto o Ministério Público Federal (MPF) já avaliou o processo como insuficiente para esclarecer problemas em aberto.
Tenotã-mõ, livro organizado por uma frente de instituições e lançado em 2005, alerta sobre os principais riscos da construção de uma hidrelétrica no rio Xingu.


Em toda a região e em particular no Pará há uma geografia marcada pela aguda disputa do território. Numa lógica marcada pelo extrativismo mineral, de energia e implantação de monoculturas.

Um caminho marcado por um horizonte homogeneizador.





Retirado do Blog Furo - http://www.rogerioalmeidafuro.blogspot.com/